Entre montanhas e gentileza

A história por trás da foto:



Eu, brasileira, e meu (ex)namorado alemão, na época, estávamos viajando pela Polônia com o Siggi, meu gato, e a Balu, a cachorra dele. Naquele dia, fomos parar em uma pequena vila nas montanhas, bem perto da fronteira entre a Polônia e a República Tcheca.


Estávamos procurando um lugar onde pudéssemos estacionar e passar a noite na barraca. Do nosso lado das montanhas, até então, só havíamos encontrado dois estacionamentos movimentados, daqueles que serviam como ponto de partida para as trilhas.


Foi quando vimos um senhor local sentado em frente à sua casinha. E então veio a pergunta, feita praticamente em linguagem de mímica: talvez ele soubesse de algum lugar onde pudéssemos acampar?


Ele simplesmente abriu o portão do seu terreno e fez sinal para entrarmos.

Um senhorzinho, no interior das montanhas polonesas, decidiu dividir seu pedacinho de terra com a gente.


Era tudo muito simples. Duas casinhas quase caindo aos pedaços, algumas galinhas andando livremente pelo terreno e uma ovelha por ali. Ele não falava nenhum idioma que conhecêssemos. Estava na esperança de que talvez ele soubesse um pouco de alemão, mas nos contou que só aprendeu russo. E dizem que, quando a água bate na bunda, a gente aprende a nadar.


Sem sinal de internet pra recorrer à ajuda de um tradutor online, puxei da memória todo o polonês que minha cabeça havia conseguido aprender e absorver durante esse tempo vivendo na Polônia. E, de alguma forma, funcionou.


Consegui me comunicar, entender e ser entendida. Com muitos erros, gestos e mímicas, começamos a "conversar". E eu ainda não consigo acreditar que, naquele momento, alguém estava realmente me entendendo em fucking polonês!


Falamos sobre cachorros, sobre a filha dele que morava na Espanha, sobre o lugar onde ele havia nascido (ali naquela vila mesmo) e sobre as trilhas nas montanhas. O senhor Janek nos deu um mapa, explicou os caminhos e ainda queria que ficássemos mais alguns dias ali.

Meu coração ficou apertado, sem saber como retribuir tamanha gentileza.


Ele tinha um sorriso largo, faltando alguns dentes, e fazia questão de nos mostrar, com aquele sorriso, o quanto estava feliz por nos receber.


Eu queria saber muito mais. Queria perguntar se ele realmente era feliz com a vida que levava,  o que sonhava, do que sentia falta... Mas meu vocabulário super limitado ainda não estava pronto para perguntas filosóficas.


Talvez nem precisasse.


Naquele momento, entendi uma coisa que nenhuma viagem planejada poderia ter me ensinado: às vezes, quem tem tão pouco aos olhos do mundo é justamente quem mais tem para oferecer. Ele tinha uma vida simples e, ainda assim, abriu a porta para quatro estranhos — dois humanos, uma cachorra e um gato. E a gente morrendo de medo da Balu querer pegar as galinhas dele. haha


Talvez seja por isso que algumas das melhores lembranças de uma viagem não estejam nos lugares super turísticos, mas nas pessoas que, por acaso, encontramos pelo caminho.


Nunca vou me esquecer daquele dia e noite nas montanhas, das nossas conversas improvisadas e, principalmente, daquele sorriso. Eu fui embora chorando com tamanha gentileza, eu queria dar o mundo pra ele se pudesse. Eu espero que ele esteja bem, espalhando sua bondade e alegria. Que sorte a nossa ter encontrado com esse ser humano!


Dziękujemy, Panie Janek!!
Obrigada, senhor Janek, por dividir conosco muito mais do que um pedaço de terra.




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