Nem tudo cabe na mesma vida

De manhã, acordo frustrada por ainda estar com sono. Na noite anterior, eu quis cortar um pouquinho das horas de sono por causa do famoso “só mais um episódio”.

As 24 horas do dia, ou os 7 dias da semana, não parecem suficientes pra dar conta de fazer tudo que eu quero. As horas dedicadas ao trabalho são muitas. As que sobram são divididas entre tarefas domésticas, fazer comida para tentar me alimentar bem e ir pra academia para mover o corpo e tentar ser mais saudável. E não são só os cuidados comigo. Também tenho os cuidados com o meu felino.

É preciso equilibrar os pratinhos e, no meio de todas as demandas da vida adulta, tentar arrumar um tempo para aquilo que existe para além das obrigações.

São muitos livros que quero ler, muitos filmes, séries e animes para assistir. Hobbies novos que quero aprender e os antigos que quero continuar. Lugares novos que quero visistar. Os idiomas que quero me dedicar a aprender e outros que quero evoluir. As coisas que quero criar. O blog que quero manter atualizado. A mente criativa que quer encontrar formas de se expressar. Os projetos fotográficos que eu queria tirar do papel e dar vida.

Não dá tempo de fazer tudo. E isso sendo uma pessoa solteira, sem filhos.

Tentar manter uma rotina de trabalho, exercícios físicos, hobbies e estudos minimamente bem já parece, às vezes, um exercício de malabarismo. Eu ficava me torturando pensando que eu não era uma pessoa organizada. A culpa é minha de não administrar melhor o meu tempo, mas mesmo organizando, é humanamente impossível dar conta de tudo. 

Nem tudo cabe na mesma vida. Isso porque eu nem mencionei a parte de socializar. Ter tempo para construir e manter relações, estar presente para as pessoas, responder mensagens, marcar encontros, sair de casa. Até o descanso entra nessa lista de coisas que precisam ser encaixadas.


Cada dia, algumas batalhas vão sendo escolhidas.

“Hoje vou comer qualquer porcaria rápida para ter um tempo pra estudar.”

“Hoje vou dormir um pouco menos para conseguir fazer algum hobby.”

“Amanhã durmo um pouco mais e tento ir fazer meu treino com mais energia.”

“Hoje vou tirar um tempinho para responder mensagens.”

“Mais tarde vou reservar umas horas para escrever, outras para editar fotos e outras para organizar a casa.”

E, no meio disso tudo, existe sempre alguma coisa ficando para depois.

Para além dessas batalhas do dia a dia, a cabeça ainda pensa nas outras milhões de vidas que eu poderia viver.

E se eu tivesse me dedicado a estudar isso? E se eu estivesse vivendo naquele país, trabalhando com aquilo? E se eu largasse tudo aqui e começasse do zero em outro lugar? E se tivesse escolhido uma profissão que me fizesse trilhar o caminho ABC, e não o DEF? Será que, se eu tivesse escolhido aprender aquela língua mais difícil, eu estaria feliz morando naquele lugar?



São infinitas opções. Infinitas possibilidades. Infinitas versões de mim que eu gostaria de conhecer. Eu sei que eu poderia tá fazendo algo completamente diferente. 

As abas mentais da cabeça não param de abrir. E, obviamente, não cabe tudo na mesma vida. 

Quem dirá nas 24 horas em que eu tento ser uma profissional excelente na minha área, comer bem, exercitar meu corpo, aprender um novo idioma, ler várias páginas do livro do momento, mergulhar no universo daquela série que escolhi assistir, tentar manter contato com pessoas queridas, me manter informada sobre o que está acontecendo no mundo, dormir bem, beber bastante água, não deixar a bagunça acumular no apartamento e brincar com meu gato.

Isso sem contar todas as outras coisas que parecem pequenas, mas que também ocupam espaço. O banho. A louça. O mercado. A roupa pra lavar. O tapete acumulando poeira. A consulta que precisa ser marcada. A mensagem que eu vi e ainda não respondi. 

E sabendo muito bem que, com essa vontade de querer fazer tudo, existem dias em que o corpo simplesmente vai dizer “hoje você não vai fazer é nada.”. E tudo bem.

Tá tudo bem não dar conta de fazer tudo. Isso eu bem sei. Não dá para acompanhar o ritmo de estar com todas as coisas “em dia”. Essa versão só cabe talvez na vida performada de influencer X no instagram. A vida não é uma lista de tarefas que, uma vez concluída, finalmente deixa espaço pra viver.

Às vezes parece que, para conseguir fazer tudo que tenho vontade, eu teria que tomar banho enquanto tento aprender a bordar, janto e assisto a um filme ao mesmo tempo.

Eu até queria escrever todos os dias para o BEDA. Essa semana nem consegui postar tudo o que eu tinha planejado. Assunto não falta. Mas cada dia uma batalha precisa ser escolhida, e nem todos os dias a mesma batalha será ganha. Paciência.



Talvez uma parte de ser adulto seja justamente aprender a conviver com aquilo que ficou por fazer, sabe? Com os livros e filmes que entram na lista, os hobbies que ficam esperando, os projetos que ainda não saíram do papel. A casa que ficou desorganizada. Aquela habilidade ou conhecimento que eu não consegui me dedicar a aprender. Aquele dia que não deu pra bater meta de X coisas que precisavam ser feitas.

Eu não vou conseguir morar em todos os países que quero. Muito menos trabalhar com todas as coisas que tenho vontade.

Não vou ter todas as versões de casa que imagino, uma decorada no estilo escandinavo, e um apartamento no estilo japonês. Não vou conseguir morar ao mesmo tempo em uma cidade cheia de oportunidades profissionais e em outra cercada por montanhas, afastada de tudo e de todos, talvez criando umas ovelhinhas.

Não vou conseguir viver todas as vidas que consigo imaginar. Nem tudo cabe na mesma vida.

São muitas escolhas, das mais simples as mais complicadas. Escolher não significa que as outras possibilidades deixam de ser interessantes. Algumas continuarão sendo. Algumas talvez até voltem em outro momento. Outras vão permanecer apenas como “e se...?” na minha cabeça pra sempre.

Não preciso dar conta de tudo para estar fazendo o suficiente. Quero me confortar pensando assim, não dá pra viver a vida nessa loucura. Hoje eu escolho uma batalha. Amanhã, talvez outra. E assim eu sigo.

E sabe o melhor? Respira. Tá tudo bem. 

(post inspirado no texto da Aline sobre escolher nossas batalhas para o desafio do BEDA do Entreblogs)


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